Penha

Nos anos de 1600, um católico francês viajava de São Paulo ao Rio de Janeiro carregando na bagagem uma imagem de Nossa Senhora trazida de sua terra natal.

À noite, montou acampamento na região onde hoje é o bairro da Penha, na Zona Leste de São Paulo. Pela manhã reuniu suas coisas e retomou a caminhada. No entanto, na noite seguinte, o viajante percebeu que havia perdido a imagem. Ele, então, deu meia-volta e encontrou o objeto no alto da colina onde havia dormido.

Aliviado, seguiu viagem, mas na noite seguinte sentiu novamente a ausência da imagem. Mais uma vez retornou à colina e mais uma vez encontrou o que procurava. O devoto entendeu que se tratava de uma mensagem avisando-o de que ali deveria ser erguida uma capela em homenagem a Nossa Senhora. E assim foi feito.

É essa a história que os penhenses ouvem há décadas sobre a fundação do bairro. A data registrada na igreja de Nossa Senhora da Penha de França é 1682, mas documentos indicam que a construção é, na verdade, alguns anos mais antiga. Uma certidão passada por um padre ao receber uma quantia em dinheiro doada a Nossa Senhora da Penha de França, por exemplo, é datada de 24 de agosto de 1667. Já a imagem original da Virgem, em madeira, foi preservada e está hoje protegida no altar da Basílica, construída entre 1957 e 1967 a alguns metros da primeira igreja. De costas para a Sé.

Também bem próxima, no Largo do Rosário, está a capela de Nossa Senhora da Penha e São Benedito, erguida em taipa pelos negros em 1802. Na época eles eram proibidos de entrar na outra igreja, a dos “brancos”. Enquanto esta construção era voltada para a catedral da Sé, a capela dos negros foi construída exatamente atrás dela e voltada para a periferia. Os negros teriam pedido esmolas nas ruas por cinco anos para reunir o dinheiro necessário à construção da pequena capela.

O bairro da Penha, o mais antigo de São Paulo ao lado de Santo Amaro, formou-se em torno da igreja e a religiosidade é uma característica presente ainda hoje entre a população local. A tradicional procissão e a festa da Natividade de Nossa Senhora, comemorada no dia 8 de setembro, reúnem milhares de pessoas.

Algumas décadas atrás, no entanto, eram capazes de atrair peregrinos de toda a Capital em busca de milagres. “Antigamente tínhamos um turismo religioso aqui, era como Aparecida do Norte”, lembra Francisco Folco, um dos idealizadores e fundadores do Memorial Penha de França. “Nos dias de festa o comércio faturava mais que no Natal”. A fama era tanta que Nossa Senhora da Penha, ainda que extra-oficialmente, foi aceita como a padroeira da cidade de São Paulo.

Não é só o caráter religioso que foi preservado na Penha. O bairro foi pouco verticalizado, as ruas do centro histórico são estreitas e os vizinhos mantêm o velho hábito de conversar uns com os outros, costume cada vez mais raro na agitação de São Paulo. “A Penha mantém uma característica provinciana – no bom sentido - onde todo mundo se conhece”, diz o jornalista Eugênio Cantero Sanchez, diretor da Gazeta Penhense e morador do bairro há 41 anos.

No entanto, quando o assunto são os monumentos históricos, a conversa é outra. Os únicos imóveis tombados pelo Patrimônio são as duas igrejas de Nossa Senhora e o colégio Santos Dumont, primeiro estabelecimento oficial de ensino da Penha, inaugurado em 1913. Um dos palacetes mais tradicionais da velha Penha, pertencente ao Coronel Rodovalho, foi demolido na década de 50. A luta dos penhenses é evitar que outros prédios históricos tenham o mesmo destino.

O progresso e o crescimento desordenado de São Paulo levaram mais gente à Penha, especialmente nos anos 70, e desta vez não apenas para homenagear Nossa Senhora, mas para morar. A área hoje administrada pela subprefeitura inclui também os bairros de Vila Matilde, Artur Alvim e Cangaíba, totalizando 475 mil pessoas. A situação econômica não é a mesma do passado, quando parte da elite paulistana mudou-se dos Campos Elíseos para a região em busca de ares mais saudáveis. A porcentagem da população em favelas é de 5,94% e o rendimento médio mensal dos chefes de família é de R$ 969 contra R$1.325 no município, de acordo com o último censo do IBGE. Os bairros também contam com pouca
opções de cultura e lazer.

Revitalização

Uma delas é o Parque Tiquatira, com uma área verde linear de quase três quilômetros. O parque passa por um processo de revitalização – no Dia do Meio Ambiente foram plantadas no local 500 mudas de árvores e a intenção da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente é chegar a 6 mil. Os poucos freqüentadores do Tiquatira nos dias de hoje usam o parque para caminhadas, mas a intenção da subprefeitura é transformá-lo num centro de lazer da Zona Leste.

A subprefeitura enfrenta ainda desafios nas áreas da saúde e educação. No início deste ano, a avaliação da subprefeitura era que 80% da demanda potencial por vagas em creches não teria condições de ser atendida. Há 19 Unidades Básicas de Saúde (UBS), além de ambulatórios de especialidades médicas, Centros de Apoio Psico-Social (Caps), centro odontológico e equipes do Programa Saúde da Família, que atendem a 13 mil famílias. Uma das reivindicações da comunidade é a construção de mais uma UBS em Cangaíba.

Entre os projetos da subprefeitura estão obras de infra-estrutura, como a construção de galerias pluviais, contenção do córrego Rincão, redes de acessibilidade para deficientes físicos e três muros de arrimo em áreas de risco. Uma preocupação da subprefeitura é com a conscientização da população para que não deposite lixo nas ruas nem nos córregos. Segundo assessores da subprefeitura, é comum as equipes de limpeza passarem em ruas recolhendo entulho pela manhã e encontrarem, horas depois, mais entulho amontoado no mesmo lugar. Em apenas uma operação de limpeza realizada no Tiquatira foram retiradas 26 toneladas de lixo.