Vila Prudente e Sapopemba

Segunda subprefeitura mais populosa de São Paulo, com 523.676 habitantes em 33,3 km², Vila Prudente/Sapopemba tem mais moradores do que a cidade de Ribeirão Preto, interior paulista, que tem 651 Km² e cerca de 504.923 habitantes.

No início do século XX, enquanto o bairro de Vila Prudente se desenvolvia industrialmente e apresentava seus primeiros traços urbanos, Sapopemba vivia ainda dos pastos, da lavoura e dos pomares. Espremido entre esses dois bairros, está o Parque São Lucas, região de terras alagadas, que só viria registrar crescimento econômico significativo a partir da década de 1950, com o comércio local. Realidades sócio-econômicas distintas, que perduraram por anos, e que acabaram por definir os traços atuais de cada um desses três distritos da zona Leste, que formam a Subprefeitura de Vila Prudente, a segunda mais populosa, com 523.676 habitantes, de acordo com o Censo de 2002 – atrás apenas da regional de Capela do Socorro.

Os distritos que formam a Subprefeitura Vila Prudente/Sapopemba são tão populosos quanto algumas importantes cidades Estado de São Paulo. De acordo com dados do Censo Demográfico de 2000, Ribeirão Preto, cidade do interior paulista, possui uma área de 651 Km², e tem cerca de 504.923 habitantes, quase 20 mil a menos que a subprefeitura, numa área de 33,3 km². “Quando eu deixo o burburinho da cidade, é pra Vila Prudente que eu vou. Eu vivo lá na vila há tantos anos, desde quando aquelas ruas pobrezinhas eram simples e descalças, como eu de pé no chão”. Certamente, Lauro Miller, autor desse samba, interpretado por Silvio Caldas nos anos 60, não encontraria hoje tanta tranqüilidade na urbana Vila Prudente, com seu amontoado cinzento de ruas, casas e prédios. Difícil imaginar essa Vila Prudente repleta de grandes áreas verdes, propriedades rurais, fazendas de gados e pomares – visto a reduzida cobertura vegetal da região, atualmente.

Em 1829, o comerciante João Pedroso, dono de extensas áreas de Vila Prudente, utilizava as terras para pastos e cultivo de frutas. O terreno do comerciante correspondia às áreas conhecidas hoje como Vila Ema, Vila Diva, Vila Guarani, Vila Zelina, Vila Bela, Jardim Independência, Vila Alpina, Parque São Lucas, Parque Santa Madalena, Fazenda da Juta, Vila Industrial e Jardim Guairaca. Após a morte do comerciante, o herdeiro Antônio Pedroso, e sua esposa Martinha Maria, passaram a administrar as terras do pai.

Em 1870, pouco mais da metade do que é hoje a Vila Prudente, Mooca e Belenzinho, pertencia a Martinha Maria, já viúva na época. Vinte anos depois, ela venderia suas terras – denominada Campo Grande - a três irmãos, imigrantes italianos, que transformariam o grande terreno em uma próspera vila industrial.

No dia 7 de outubro de 1890, o jornal O Estado de S. Paulo publicava o “nascimento” da Vila Prudente em uma pequena nota que afirmava: “Nesta capital foi constituída uma empresa que adquiriu terras entre S. Caetano e Mooca, com o fim de estabelecer uma vila que terá o nome encima citado esta notícia (Vila Prudente), em homenagem ao governador do Estado, dr. Prudente de Moraes”.

Naquele ano, os irmãos Emídio, Panfílio e Bernardino Falchi, com auxílio do financista Serafim Corso, compraram a gleba de terra dos Pedroso e instalaram a primeira indústria da região, a Fábrica de Chocolates Falchi. Os Falchi tinham a pretensão de lotear e realizar outros negócios no grande terreno adquirido.

Assim, fundaram a Vila Prudente, novo bairro da zona Leste de São Paulo. A princípio o empreendimento dos três irmãos parecia uma investida audaciosa demais numa região com pouca mão-de-obra. Mas os Falchi não erraram ao investir na região.

O operariado da fábrica de chocolates foi constituído basicamente de imigrantes italianos, que vieram das regiões da Mooca, Ipiranga e Brás. Além disso, os irmãos promoviam mutirões para construção de moradias operárias no entorno da fábrica. Emprego e moradia, essa combinação fez com que se iniciasse um processo acelerado de povoamento da Vila Prudente.

A fábrica dos Falchi impulsionou o desenvolvimento industrial e comercial da região. No início do século XX, depois da fábrica de chocolates, vieram outras importantes indústrias, como a Cerâmica Vila Prudente, a Indústria de Louças Zappi, a Manufatura de Chapéus Oriente e a Fabrica Paulista de Papel e Papelão.

De uma região quase deserta do final do século XIX, a Vila Prudente se transformava em uma grande vila fabril.

Com a chegada da rede elétrica e o desenvolvimento do sistema de transporte, Vila Prudente ganhou ares e infra-estrutura de uma cidade. Mas, junto ao desenvolvimento e a urbanização, vieram os problemas sociais. Em 1940, surge a primeira favela de Vila Prudente, formada basicamente por imigrantes e trabalhadores da construção civil. Hoje, o bairro possui nove favelas espalhadas em toda a sua extensão.

Reivindicações e necessidades bem antigas fizeram com que a Prefeitura realizasse projetos como o Cata-Bagulho e o projeto-piloto do Multi-Serviços Noturnos – ambos idealizados pela Vila Prudente/Sapopemba - e o corredor expresso Parque D.Pedro – Cidade Tiradentes, que irá ligar a região central até a Cidade Tiradentes.

Importantes vias da região da Subprefeitura Vila Prudente, como é o caso da Luís Inácio de Anhaia Melo, já fazem parte do trajeto das linhas semi-expressa. “Vila Prudente cresceu como a própria cidade de São Paulo, de maneira rápida, desorganizada e sem planejamento e isso trouxe uma porção de problemas para a região”, conta Newton Zadra, presidente do Círculo de Trabalhadores Cristãos da Vila Prudente, que está escrevendo um livro sobre o distrito.

Há 54 anos no bairro, Zadra diz que Vila Prudente vem se “descaracterizando”, devido ao surgimento de muitos bairros e vilas, e à mudança de sua vocação regional. “Em poucos anos, deixamos de ser uma grande região industrial para nos tornarmos uma área de comércio e serviços”, conta. Mas, apesar dos problemas sociais, a região é considerada a de melhor qualidade de vida, comparada a seus vizinhos.

O desenvolvimento econômico tardou a chegar ao Parque São Lucas. Conhecido como “grande brejo”, por causa de suas terras alagadas, não era uma boa região para a hortifruticultura. Somente a partir da década de 1950 é que são Lucas vai encontrar, no comércio, sua vocação regional.

“Demorou muito tempo para o bairro ter um comércio interno forte. Antes, tínhamos que sair daqui para conseguir mercadorias básicas do dia a dia”, afirma morador do bairro, Luiz Amaral, de 55 anos.
Ao contrário de São Lucas, as terras vermelhas de Sapopemba, não demoraram a mostrar a vocação regional do bairro. O terreno era ideal para o cultivo de verduras e para a produção de telhas e tijolos. Por muitos anos, essas foram as motrizes da economia do bairro de Sapopemba, que surgiu na década de 1920. Diferente de Vila Prudente, o povoamento do bairro se deu por imigrantes portugueses, que instalaram suas chácaras na região.

Com a urbanização de Sapopemba, como conseqüência do desenvolvimento econômico promovido pela agricultura local, o bairro passou a atrair populações novos moradores. Hoje, Sapopemba é o distrito mais populoso da subprefeitura, com 282.239 habitantes, e o que mais sofre com os problemas estruturais e sociais. São 34 favelas espalhadas em toda sua extensão.

“Sapopemba sofre com a falta de áreas e equipamentos de cultura e lazer. Existe apenas uma biblioteca para uma população de quase 300 mil habitantes”, afirma Laura Kamisaki, coordenadora do Comitê Pró-Festejos, organização formada por entidades comunitárias, comerciantes do bairro e imprensa local, que promove anualmente as comemorações do aniversário de Sapopemba – em 26 de junho – e realiza constantes ações sociais na região. Um dos projetos da entidade em andamento é a criação de mini-bibliotecas nas áreas de exclusão.

Sapopemba ficou conhecida como uma área violenta, de grande criminalidade na cidade de São Paulo.“Hoje temos uma região menos violenta, apesar das dificuldades que ela apresenta. Mas, a população que vive lá, com auxílio de organizações não governamentais e entidades comunitárias, está dando um pouco mais de si para melhorar o bairro, o que tem rendido bons resultados”, afirma Laura.

Atendendo a velhas reivindicações da população da região, Sapopemba, que possui uma reduzida cobertura vegetal, está entre as áreas que serão beneficiadas pelo programa de Arborização Urbana da Prefeitura. O nome do bairro é uma homenagem a uma velha árvore , típica da Amazônia, a sapopema, que por muitos anos foi um ponto de referência da região.